Nota de Pesar - Proaf
Claudio Ahnã Pataxó Hãhãhãe Ancestralizou. Claudio Kariri- Sapuyá Ancentralizou!
Como nos ensinam as tradições e saberes dos povos indígenas, o falecimento de um parente significa uma passagem para um outro plano, de onde segue enquanto ser espiritual mantendo a capacidade de proteger seus parentes.
Claudio Santana Santos durante o período em que foi estudante da UFSB, onde ingressou em 2016 no curso do Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades do CJA, sempre dedicou sua trajetória na nossa universidade a tarefa de proteger seus parentes. E não só isso, também dedicou sua passagem por aqui a tarefa de proteger as tradições indígenas dentro do ambiente acadêmico, espaço esse que costuma ser muito potente na tarefa de invisibilizar saberes, tradições e linguagens indígenas.
Ahnã, como era mais conhecido entre nós, fez trabalhos dedicados a divulgação e compartilhamento de elementos da língua Patxohã, tendo realizado oficinas quando foi bolsista de Promoção das Linguagens Indígenas, selecionado por meio do Edital Prosis 10/2019 que era parte das ações do Ano Internacional das Línguas Indígenas (InternationalYear of Indigenous languages – IYIL2019), instituído pela UNESCO naquele ano.
Ahnã também foi fundador junto com outros valorosos estudantes indígenas do Núcleo Central dos Estudantes Indígenas – NCEI/UFSB, sendo importante referência e dirigente para as lutas e acolhimento dos novos estudantes indígenas que ingressaram na UFSB no CJA, e depois do CPF para onde se transferiu para finalizar seu curso do BIH enquanto ficava mais próximo de seus familiares e buscava cuidar de sua saúde.
Aqui, me permito compartilhar uma referência mais pessoal, da minha condição de docente na área de Humanidades e que – na interface com a atribuição de pró-reitor da PROSIS/PROAF – acompanhou de perto os desafios nas trajetórias acadêmicas que parte dos estudantes indígenas vivenciam ainda hoje.
Tendo ingressado em 2016, Ahnã relatou muitas dificuldades em sua trajetória no curso, e próximo de concluir a carga horária total do curso teria que enfrentar a etapa da produção da monografia e da sua defesa em banca. Sendo orientado com uma atenção sempre muito dedicada pelo professor André Rego (CPF), Ahnã viu na organização da sua defesa do trabalho monográfico uma oportunidade de mais uma vez nos ensinar sobre o quanto precisamos repensar muitos dos ritos da universidade. Explorando mais elementos das suas tradições orais nos fez compreender com muito mais profundidade toda a produção acadêmica de sua trajetória na UFSB do que poderia nos apresentar as páginas escritas de sua monografia. A banca, composta pelo seu orientador, por mim e pela professora Lilian Reichert (CJA), viu ali o quanto ainda temos um longo caminho a trilhar nos nossos Diálogos Indígenas, tão fundamental numa universidade como a nossa que tem uma das maiores proporções de estudantes indígenas no país em seu corpo discente.
Ahnã seguirá sendo necessário aos seus parentes, como foi em vida, só que agora em um outro plano de sua existência.
Texto: Sandro Ferreira/PROAF
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